• Vinícius Lucena

A relação entre Gil e a Banda de Pífanos de Caruaru



Gilberto Gil e Sebastião Biano, compositor de 'Pipoca Moderna'

A vinda de Gilberto Gil a Pernambuco, em 1967, foi motivada por uma temporada de shows do seu primeiro disco de estúdio, Louvação (lançado naquele mesmo ano). Durante a estadia na capital pernambucana, o músico baiano, que em pouco tempo viria a despontar no cenário nacional, foi apresentado a uma manifestação cultural genuinamente caruaruense: a Banda de Pífanos de Caruaru. O primeiro encontro entre Gil e o grupo formado em 1924 pelos irmãos Biano aconteceu por intermédio do compositor Carlos Fernando, que, entre as apresentações no Teatro Popular do Nordeste (TPN), convidou o artista a uma ida à Capital do Agreste. Outras versões dizem que o responsável por apresentar Gil ao grupo caruaruense foi Jards Macalé. Gil e um grupo de artistas e agitadores culturais subiram, então, a Serra das Russas e chegaram a Caruaru, onde encontraram o prefeito da cidade, que reuniu a banda e montou uma apresentação especial. Daquela apresentação, Gil levou a ideia de misturar a música que tinha ouvido com as tendências musicais da época. Um ano após o encontro, em 1968, seria lançado o Tropicalia ou Panis Et Circenses, disco “manifesto” do movimento tropicalista. Caetano Veloso, em seu livro Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997), fala que Gil “dizia-se apaixonado por uma gravação dos Beatles chamada "Strawberry fields forever", que, a seu ver, sugeria o que devíamos estar fazendo e parecia-se com a "Pipoca moderna" da Banda de Pífanos”.

Visita de Gil a Caruaru. Na ponta direita, perto da roda do Fusca, Onildo Almeida

Em 1972, Gil voltava do exílio em Londres com a ideia de buscar influências nas manifestações culturais brasileiras e restabelecer contato com o grupo. O músico baiano se apresentou no Teatro do Parque, em Recife, e, segundo relatos, passou três dias na Capital do Forró. Dizem que, naquela ocasião, a banda se apresentou na casa do prefeito, onde um Gil mudado pelas experiências em território britânico os esperava sentado no chão da sala. Foi um contato breve, mas Gil gravou a apresentação e prometeu que uma das canções tocadas naquele dia estaria no seu disco. O grupo desacreditou. Muitas pessoas “de fora” já tinham feito a mesma promessa. No entanto, os integrantes ouviram uma entrevista de Gil à Rádio Cultura de Caruaru na qual ele reiterou a promessa e, pouco tempo depois, a Banda de Pífanos de Caruaru fechou um contrato com a CBS. Ainda em 72, Gil lança Expresso 2222 e cumpre a promessa feita durante a visita a Caruaru. Pipoca Moderna, composição de Sebastião Biano, abre o disco, que conta também com uma regravação de Sai do Sereno, interpretada originalmente pelo sanfoneiro paraibano Abdias dos Oito Baixos e composta pelo caruaruense Onildo Almeida. Pipoca Moderna ainda ganhou, em 1975, uma letra composta por Caetano Veloso, que incluiu a nova versão em seu disco Jóia. Posteriormente, a versão (com a letra de Caetano) foi regravada pela Banda de pífanos de Caruaru no terceiro disco do grupo, gravado em 1976. De acordo com Sebastião Biano, os integrantes da banda ganharam mais dinheiro com os direitos autorais da música incluída no disco de Gil do que com a própria discografia lançada pela banda. A relação de Gilberto Gil com a música caruaruense também ficou eternizada na música Forrozear, composta e gravada por Geraldo Azevedo e depois cantada pelo próprio Gil.

REFERÊNCIAS: - DA SILVA, Itair Morgado - PERNAMBUCO À SOMBRA DO GOLPE: A arte-resistência de Daniel Santiago. Recife, 2014. - PEDRASSE, Carlos Eduardo - BANDA DE PÍFANOS DE CARUARU

Uma análise musical. Campinas, 2002. - VELHA, Cristina Eira - Significações Sociais, Culturais e Simbólicas na trajetória da Banda de Pífanos de Caruaru e a problemática histórica do estudo da cultura de tradição oral no Brasil. São Paulo, 2008. - JÚNIOR, Frank - Os Beatles de Caruaru - A História


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