• Giovanna Carneiro

A quem olhar e por quê? Artistas de rua em meio às dificuldades da pandemia

A pandemia do novo coronavírus e o isolamento social afetou toda a classe artística, ao interromper a realização de shows, peças de teatro, exposições e tantas outras formas de manifestações públicas. Com a arte de rua, o efeito não foi diferente, chegando a estabelecer um cenário ainda mais preocupante.

Em meio a contrariedades impostas por tantas indefinições, esquecemos, muitas vezes, daqueles poetas, cantores e músicos, que fazem dos transportes coletivos e dos pontos turísticos da cidade meios indistintos de sobrevivência: da arte e da vida. Na maioria das vezes, inclusive, a contrapartida da mão de obra do trabalho que exercem, de forma independente, não chega sequer ao trocado do pão da semana.

Os artistas de rua Fábio Silva, 20, da dupla Los Negrones e Arlisson Vilas Bôas, 28, têm lidado com as consequências de não poderem tocar nas ruas, do mesmo modo que tentam novas formas de continuar pondo a música em prática, de uma forma ou de outra, para conseguirem o sustento financeiro e imagético da arte musical.

Moradores do bairro do Totó, na Zona Oeste do Recife, a dupla Los Negrones percorre a Capital Pernambucana dentro dos transportes urbanos, tocando e cantando canções marcantes da música brasileira. Fábio e seu irmão, Felipe Silva, 27, iniciaram o projeto da dupla musical nos metrôs do Recife e da Região Metropolitana, e só depois passaram a tocar nos ônibus e pontos turísticos da cidade. Imprevisível, como a atual situação, a dupla se lançou aos quatro cantos do Estado ainda sem nome ou marca definida, mas a identidade de cara pôde ser percebida entre os acordes e as mensagens que entoavam nas canções.


Enquanto tocavam na praia de Porto de Galinhas, os irmãos, foram surpreendidos por um gringo do Equador, que pela primeira vez os chamou de "Los Negrones", então nome representado pela dupla. “Nós adoramos, porque o nome remete às nossas raízes latino americanas e adotamos o nome”, declarou Fábio.


O músico vê os ônibus como uma grande escola das artes, tal como voz que transmite alegria e leveza indescritível. Fábio Silva falou sobre os prazeres que encontrou cantando nas ruas. “Nós somos artistas totalmente independentes. Conseguimos o nosso dinheiro fazendo música na rua. Amamos tocar, seja na rua, nos bares, nas praias. É muito bom fazer a música e sentir a música dentro de você”, disse.

A paixão de Fábio pela arte de rua é notável e, apesar das dificuldades, o artista tem um olhar otimista sobre sua profissão. “Nós artistas encontramos dificuldades no nosso trabalho, mas acho que todo trabalho tem seus desafios, uma pedra no caminho, mas a gente vai lá e atropela essa pedra e consegue caminhar”.

Impedidos de tocar nas ruas, a dupla tem promovido lives em sua página do Instagram, no intuito de arrecadar dinheiro. Além disso, os dois aproveitam o período de isolamento para estudar mais sobre música e compor novas canções. Em setembro, o Los Negrones lançará seu primeiro EP, composto exclusivamente de músicas autorais.

O cotidiano e as "pedras no sapato" enfrentadas pela dupla se assemelha à realidade vivenciada por Arlisson Vilas Bôas. Trabalhando nas ruas há quase seis anos, o artista também deu início à carreira tocando no metrô e, posteriormente, passou a circular pelos coletivos do Recife e da Região Metropolitana, compartilhando suas produções com as pessoas. Coincidentemente, o músico também costumava tocar na praia de Porto de Galinhas durante os finais de semana.

“Eu acho maravilhoso ser artista de rua, porque você pode lidar com as sensações e você está ali sendo o centro da visibilidade, emanando uma canção e uma poesia, e aquilo vai refletir em alguém. A arte de rua é mágica e inspiradora”, declarou o artista.

Inspirado no Blueman Group, artistas que ficaram famosos após participar de um comercial da TIM em 2011, Arlisson criou seu próprio instrumento, uma percussão a vácuo, com 12 canos de tonalidades diferentes. Através dele, o artista produz sons com um estilo musical psi e trance.


Neste período de confinamento, no entanto, experimentar tem sido a palavra chave para o cantor. “Nessa pandemia, eu estou começando a aprender que eu posso cantar bem e que minhas letras fazem sentido”, ressalta. Junto com a artista Isa Fierce, Arlisson criou um projeto musical chamado Israli, no qual escreve e canta canções que elevam a mistura entre o Pop e o Reagge.


Artistas Negros Importam?

Desde a última semana, uma onda de manifestações contra o racismo vem se espalhado pelo mundo, o que levou diversas pessoas a se posicionarem como “antirracistas” nas redes socias. Como jornalista e escritora negra, não poderia deixar de expor minha opinião, principalmente após escrever sobre homens negros artistas de rua.

Fábio Silva e Arlisson Vilas Bôas falaram com tamanho entusiasmo de sua arte, mas não se engane. Ser homem negro e artista neste país não é uma posição prazerosa na maioria das vezes. Tenho certeza que esses artistas enfrentaram inúmeras situações racistas, seja um olhar de ódio, um xingamento ou o medo das pessoas ao estarem próximas deles. Isso, a gente sente, nem adianta disfarçar. A gente sabe quando não é bem-vindo e no mundo da arte costuma ser assim. As pessoas pretas são a exceção e nem é por falta de talento, mas por falta de oportunidade mesmo.

Ciente de que a prática racista está além de um post em uma rede social ou de um texto que venha a ser postado, eu te pergunto: quantos artistas negros você consome e apoia? Este é o momento de pôr em prática o antirracismo e para isso é preciso agir. Você pode começar seguindo Arlisson, Fábio e tantos outros artistas negros nas redes sociais. Você pode começar dando um sorriso aos artistas negros que fazem arte de rua quando você não tiver dinheiro para dar a eles. Você pode começar doando e os ajudando neste momento de pandemia.

25 visualizações0 comentário