• Vinícius Lucena

A mídia física no underground contemporâneo




A música, em sua essência, é algo intangível. Não podemos tocar, manusear ou manipular fisicamente um som que está sendo reproduzido e, em teoria, se perde no momento em que deixa de ser ouvido. Todavia, produtos derivados da música podem nos proporcionar uma experiência multissensorial, na qual podemos combinar a audição ao toque, à leitura e, em alguns casos, à apreciação visual.


Com o surgimento do mp3, os downloads (legais e ilegais) e, posteriormente, os serviços de streaming (que dispõem de catálogos vastos e oferecem fácil acesso), a tangibilidade da música foi posta em cheque em diversas ocasiões. No entanto, discos de vinil continuam sendo prensados - embora em menor escala em relação às últimas décadas do século passado - e mídias como as fitas cassete, que despertam nostalgia em algumas pessoas, voltaram recentemente ao cenário musical.


Na história da música independente, as fitas cassete desempenharam um papel importante nos processos de gravação e difusão do produto musical. A fim de resgatar esse elemento e evitar que experiências, memórias e até sonoridades se percam, alguns artistas e consumidores têm feito um movimento de trazer as tapes de volta à cena underground.


Partindo de uma série de experiências feitas com um Portastudio, o músico recifense Antônio Nolasco concebeu o projeto O Quarto Mágico de Nolasco. Em abril, Nolasco lançou um EP com quatro músicas gravadas em um processo híbrido, com o gravador de fitas sendo utilizado para processar os áudios captados de maneira digital. A ideia, de acordo com o músico, é extrair texturas características de produções feitas nas fitas e desenvolver um processo que não fosse exclusivamente digital. “Foi bem desafiador. Fiz o registro digital, passei pelo analógico só pra extrair essa sonoridade e reproduzi de novo pra gravar digitalmente essa segunda versão analógica. Depois, foi feita uma mixagem digital pra ressaltar as características do som analógico”.


“Tem uma ideia muito estigmatizada no áudio que relaciona o digital à modernidade e o analógico às coisas mais antigas. Fazendo essa mistura, tive muitas reflexões, porque na época em que houve uma migração pro digital, se prezava muito pela fidelidade. Eu fiz o caminho inverso, quis estragar esse áudio”, comenta Nolasco.


Além da busca por uma sonoridade característica, outros projetos surgiram, declaradamente, do sentimento de nostalgia provocado pelo contato com as fitas. Em Itabuna, na Bahia, o selo musical Tocaia - que também atua como uma produtora de eventos underground - se dedica à produção de mídias físicas de bandas de hardcore, crossover, metal, entre outros gêneros que transitam nos círculos alternativos. Jone Luiz, membro da banda Jacau, de HC/Crossover, e idealizador do selo, conta que a iniciativa surgiu de uma nostalgia pessoal, da ideia de se resgatar “um gosto antigo que se distanciou com o surgimento de novas mídias".


'O fim que nunca acaba' da Devotos, pelo Tocaia

Jone, que já perdeu as contas de quantas bandas já lançaram fitas pelo selo, destaca que o processo de produção das fitas na Tocaia é artesanal - da gravação à produção dos encartes - e “muito trabalhoso”. A produção começa com a procura por fitas novas, zeradas, por uma questão de qualidade sonora e vai até os acabamentos visuais, com um acabamento que “dá um aspecto industrial” às fitas.


Já a experiência de Nolasco, que vendeu as fitas em uma campanha de arrecadação virtual, valorizou as interferências sonoras causadas pelas fitas. "Todas as fitas que eu usei foram reutilizadas, então a qualidade variava muito. Era engraçado ouvir a gravação com pequenos defeitos e mudanças que não temos como controlar”, conta Antônio.


Hoje, não há nenhum cassete no estoque da Tocaia, o que dá uma dimensão da projeção alcançada pelo selo no cenário do underground nacional. Jone divide os consumidores em três nichos: os colecionadores, as pessoas que têm uma estrutura para reproduzir e compram pra ouvir e os fãs que vão atrás das fitas só para ajudar as bandas e a cadeia produtiva. Além dos mais fiéis, o músico e produtor destaca que o formato se popularizou recentemente entre públicos mais jovens. “Tenho observado que tem uma galera nova que tá conhecendo o cassete agora, estão pegando para ouvir, sentir o som. Às vezes tem gente que tá enjoada das plataformas digitais e quer experimentar coisas novas”.


Apesar de apostar (por questões de afinidade) nas mídias físicas, o Tocaia também se faz presente nas redes. Em julho de 2020, já em meio à pandemia, o selo lançou seu próprio serviço de streaming.


‘Pertencimento e conexão’


Discutir o papel das mídias físicas na música contemporânea não se trata, necessariamente, de se estabelecer uma dicotomia entre real e não real, muito menos entre o bom e o ruim. Ao discorrer sobre o tema, Kyle Devine, pesquisador em musicologia da Universidade de Oslo, diz que até um arquivo em mp3 tem sua materialidade; a escala, no entanto, é muito pequena, invisível, mas não dá pra dizer que não há. Para acessar uma música num aplicativo de streaming, também “tocamos”, navegamos por uma interface que, na maioria dos casos, requer um mínimo esforço físico da parte de quem consome.


No entanto, talvez por uma questão cultural, estamos mais acostumados a relacionar a o produto musical físico a mídias como o vinil, e k7 ou os cds. No texto "Ter e segurar: o toque e o ressurgimento do vinil", o pesquisador Adam Harper afirma que “dispositivos analógicos são objetos que representam mais o movimento e o contato do que os seus sucessores digitais”.


Mas se tem no Spotify, por que gastar (mais) dinheiro com uma “mídia física”? Para além dos argumentos mostrados no início desse texto, o que explica o gosto que uma pessoa pode ter por um disco ou pelas sensações que envolvem o seu consumo (como o toque dos dedos nos discos ao ‘folhear’ um acervo ou o jeito específico de manusear um bolachão ou uma fita)? No artigo citado no parágrafo anterior, Harper fala sobre o significado do toque de uma maneira geral e menciona o vínculo que o toque pode evidenciar em diversas situações, seja em relações interpessoais (aqui ele dá o exemplo de um aperto de mão e o vínculo que tal gesto sugere) ou de pessoas com coisas. Tais experiências podem moldar os gostos e a vivência de uma pessoa. Pra explicar, ele traz um trecho de um texto do psicólogo Matthew Ratcliffe, no qual é dito que o toque com um caráter afetivo pode evidenciar “uma questão de pertencimento e conexão”.


O “pertencimento” e a “conexão” certamente são alguns dos elementos que influenciam a produção de mídias físicas (em especial das fitas cassete) pelo selo Tocaia. “É um formato característico do underground, é uma coisa muito nossa, dos consumidores do metal, do punk rock e de outros gêneros derivados. Isso vem de uma falta de recursos que havia na época, a fita era como se fosse o mp3 da época, você dava a fitinha pra quem tinha um LP, reproduzia e por aí vai. Era a forma mais fácil de se conseguir as músicas que a gente curtia”, afirma Jone Luiz, que compara a experiência do cassete à “leitura de um livro”.


“Você coloca o cassete, dá o play e tem que ouvir o lado a todo e o lado b todo, você tem que circular pela fita toda. No passado, quem ouvia esse tipo de mídia conhecia todas as músicas do CD, as fichas técnicas, quem produzia, quem tocava em cada faixa. É um lance bem vintage, que remete ao passado”.


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