• Heloise Barreiro

A inversão de Juvenil Silva no EP “Isolamento acústico”


Foto: Raíssa Vila Nova/Divulgação


À arte sempre coube o papel de materializar as subjetividades humanas; incorporar ao produto final os mais disformes sentimentos. Em uma realidade atravessada por ambiguidades, surge a necessidade se desdobrar para acompanhá-la. Assim surge o EP “Isolamento acústico”, do músico recifense Juvenil Silva. Gravado em apenas uma semana na solitude de um apartamento no bairro da Boa Vista, no centro do Recife, o álbum nasce como uma forma de botar para fora as novas inquietações da consciência e também garantir a sobrevivência do artista.


Influenciado pelo acústico solitário de Bob Dylan e pelo improviso peculiar de Syd Barrett, o disco carrega um estilo folk psicodélico que se soma a letras que abordam angústias com o tom próprio do artista, que, por vezes, não abre mão do bom humor. “Eu toquei tudo só - violão, baixo…. queria me deixar como eu estava, tive que ser transparente nisso. Aparecer com meus erros, defeitos, com meus limites, com minha maloqueiragem e minhas brincadeiras no instrumento e na voz”, afirma. As faixas foram finalizadas de forma simples por Totonho Nolasco,


A necessidade de se reinventar na pandemia se assemelha à de uma criatura em extinção, que precisa migrar para um novo ambiente com novas possibilidades, pensa Juvenil. “O pensamento era que tava tudo ao contrário e como tá tudo de cabeça para baixo eu precisei me inverter também”. A lógica invertida acompanhou o álbum até o seu processo final - a distribuição. Na contracorrente, o músico optou por não disponibilizar as faixas nas plataformas digitais, de forma que para ter acesso ao trabalho é necessário entrar em contato diretamente com ele através das redes sociais (@juvenil_silva, no Instagram) ou pelo e-mail isolamentoacustico2020@gmail.com e colaborar com o valor desejado.



“Foi meio que uma afronta ao mercado e também a mim mesmo, que vivia dentro desse mercado musical”, explicou o cantor. Para ele, a experiência tem sido única e estreita a relação com o público, não havendo a intenção de disponibilizar o álbum digitalmente mesmo após a pandemia. “É um disco que só vai existir para quem esteve nesse momento comigo, ele é pessoal e intimista”. Foi confirmado que novas versões das canções podem aparecer em álbuns futuros, mas com uma roupagem diferente. Quem efetua a compra recebe o conteúdo por e-mail, acompanhado de um rico encarte que contém as letras e cifras das canções.


O coletivo


O álbum contém seis faixas: Objeto Afetivo”, “Noites sem Futuro”, “O Céu Caiu”, “Podem me Deixar”, “Carta a um Amigo” e “Dias Impossíveis”, assinadas em parceria com Seu Pereira, Wander Wildner, Joe Silhueta, José Juva, Totonho, Negro Bento e Guilherme Cobelo. A ideia de trazer uma colaboração em cada música foi intencional e evidencia novamente o tom de contrariedade do disco, que em tempos de distanciamento social, insistiu em reunir vários músicos em um só lançamento.


O estado de incertezas que a crise do Covid-19 trouxe aproximou a relação dos músicos, que percebendo os sentimentos confusos em comum, passaram a se comunicar mais. “Quando a gente se viu nessa situação, paralisados em casa, em stand by, com bastante tempo e com cabeça girando, começamos a nos comunicar mais”, conta Juvenil.


“Parece que essa foi uma maneira que nós músicos encontramos de botar pra fora. Tipo quando a gente pega uma coisa ruim e transforma numa coisa bonita”. É assim que o cantor entende a resistência artística que foi criada em meio ao caos. A escolha de um músico para cada faixa foi “uma forma de poder trazer um pouco a essência de outras pessoas”, finalizou.


Processos


Considerando os anos de trabalho de Juvenil Silva, a ideia de um estúdio em casa não é completamente nova, levando em conta que já gravou trechos de canções nas casas de amigos que dominavam o ofício, mas nunca sozinho. Até então, o cantor nunca havia realizado um trabalho 100% lo-fi, ou seja, com recursos mínimos de produção e edição, gravado dentro da sua própria casa.


Para mergulhar no desafio, foi necessário pedir equipamentos emprestados e até fazer aulas onlines. “Peguei emprestado um gravador e um microfonezinho e comecei a aprender a gravar; comecei a ter muito tesão, muito gosto nisso. E aí me joguei naquilo. Logo no começo da pandemia comecei a compor loucamente e após uma semana estudando e vendo vídeo aula comecei a gravar oficialmente”.


Pensando bem, a afinidade do cantor com o método “faça você mesmo” não apareceu só nos momentos de gravação, mas certamente também na distribuição, que é feita manualmente para cada comprador e também na identidade visual do disco - a colagem que estampa a capa foi feita pelo próprio Juvenil, combinando elementos que remetem ao momento caseiro e íntimo da produção.


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