• André Santa Rosa

A cosmovisão de Amaro Freitas em Sankofa


Foto: Jão Vicente/Divulgação


"Não é errado voltar atrás pelo que esqueceste". Símbolo ideográfico dos povos acã, grupo linguístico da África Ocidental, sankofa é uma imagem que diz “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”. Uma forma ancestral de se pensar um futuro possível. A imagem do pássaro de sankofa é o ponto de partida para o terceiro disco do pernambucano Amaro Freitas.


Já consolidado, vemos um Amaro Freitas já icônico como jazzista e em total aproveitamento de genialidade. Criado na periferia do Recife, em Nova Descoberta, o músico ganhou notoriedade após os discos Sangue Negro (2016) e Rasif (2018). Mostrando uma leitura de nordeste e da periferia nordestina através de contornos jazzísticos. Sankofa conta com a banda formada por Jean Elton (baixo) e Hugo Medeiros (bateria).


Começou a carreira sendo tecladista na Assembleia de Deus, assim como seu pai. Tendo piano como instrumento musical principal, foi influenciado diretamente pelas sonoridades da música popular brasileira como Capiba, Moacir Santos, Hermeto Pascoal e João Donato, além do frevo e do maracatu. Dos pianistas de jazz, assumiu a destreza e inventividade de músicos como Monk, Jarrett ou Corea.


Sankofa é uma espécie de jornada, que adentra uma história esquecida pelo país. Uma história de talentos e narrativas negras. Em Baquaqua, o príncipe africano Mahommah Gardo Baquaqua, que fugiu da condição de escravizado no Brasil, foi pros Estados Unidos e se tornou escritor da própria biografia. Já em Vila Bela, uma sonoridade mais solar e delicada, que rememora o local entre Mato Grosso e Bolívia, onde Tereza de Benguela liderou uma resistência a escravidão por duas décadas. Na vertiginosa Cazumbá, a referência é o cazumbá, um personagem do bumba-meu-boi, do sotaque da baixada ou de pindaré. O cazumbá não é homem, nem mulher e nem animal, que está entre a magia e o lúdico.


Se antes Amaro partiu de sua periferia para falar de questões globais, em Sankofa o gesto parece partir do global para pensar cosmogonias pessoais. Uma qualidade para construir narrativas diaspóricas, que também não deixam de ser coletivas. Nesse sentido, lembra bastante o trabalho com tanta qualidade – também a partir do piano – de Zé Manoel em Do meu coração nu (2020). É uma forma de se pensar para onde vamos a partir do passado. De criar a partir do que foi injustamente apagado. Como quem acredita que houvesse um pouco de si em cada narrativa não contada.


Ouça a faixa Sankofa:



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