• André Santa Rosa

A canção como máquina e a paisagem do antropoceno em Demiragens


Quando vivemos em um estado de intensificação da finitude, é natural que comecemos a deslocar o humano do centro da coisa. E se desnaturalizando a figura do poeta criador, a canção cantasse a canção? Essa é a pergunta, uma espécie de ponto de partida para a máquina de abstrações que é o disco Canto-Máquina (2019). Em Demiragens, canção do álbum que ganhou um arranjo visual feito por Bruno Veras, Jão Vicente e Luara Olívia, com atuação de Joaquim Francisco, assistimos a uma paisagem noturna, uma espécie de miragem em vertigem que sobrevive para além da figura do poeta como esse criador: é a canção como máquina que persiste e canta para si, para além do próprio humano.


O disco foi produzido entre 2015 e 2018, Canto-Máquina se materializa através dos arranjos de Mateus Alves, compositor das trilhas sonoras de filmes como Bacurau e Brasil S/A, e da voz de Caio Lima, músico da banda Rua do Absurdo. É um álbum de 13 minutos, distribuídos em quatro faixas, mas que por meio de um videoclipe lançado esse ano, ganha novos contornos e visualidades.




Através do clipe da música, assistimos a um das possíveis materializações desse eterno correr das coisas e dessa miragem: as ruas vazias, uma ambulância que entrecorta a noite como um ruído veloz; a paisagem noturna do Recife, muito diferente da própria canção, parece sentir os efeitos de um mundo com sua versão econômica da nossa presença. A estátua da Aurora, agora de máscara, assiste ao mundo sem nós. A canção continua desejando, enquanto nós tentamos permanecer nas nossas casas assistindo ao colapso de várias infinitudes da civilização ocidental. São as nossas vidas em ausências, que não resistem ao esquecimento. E tudo isso cabe no sistema afetivo que o projeto pensa para a canção.


Vivemos no antropoceno, momento em que nossas miragens são redimensionadas pela sentimento coletivo de finitude. “Palavra que demora. Sentido que resiste ao esquecimento”, canta a música. “Essa questão da máquina me levou a pensar o desejo das próprias coisas, mas também como o cantor é apenas o meio de suporte disso. Na verdade, o que queríamos com o disco era lançar a pergunta: ‘Como a canção cantaria sobre si?’. É uma visão pós-humana, no sentido de criticar o antropocentrismo e o lugar do artista”, me disse Caio Lima, em entrevista na época do lançamento do disco, no ano passado.


O trabalho feito no disco e em Demiragens pouco se trata de uma busca por uma nova canção, muito menos uma pós-canção. Na verdade, em seu maior potencial reside trazer uma visão pós-humana, em um exercício de linguagem interessado não no objeto, mas nas articulações e engrenagens dessa máquina poética. Máquina que se transmuta, mistura, que sempre cabe, mas permanece eterna em suas movimentações. Ela vai muito adiante das imagens criadas pelo poeta, firmando essa trama de peças ideológicas, espirituais, apocalípticas, sonoras, corporais e assim por diante. A máquina é esse meio para a criação das coisas, como as canções e seu poder de cantar o tempo e inventar sensações.



13 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo