• Vinícius Lucena

A boemia de Bella Kahun em 'Crua'


Divulgação/Rostand Costa

Nas dez músicas que compõem Crua, primeiro álbum da cantora garanhuense Bella Kahun, há uma simbiose elegante de ritmos e de sentimentalismos. Resultado de um processo de criação realizado durante a pandemia, o trabalho foi concebido inicialmente como um EP, mas a inspiração da artista, atrelada à criatividade e à expertise dos responsáveis pela produção, cresceu até virar um disco.


A artista, de 19 anos, conta que Crua surgiu de forma “muito espontânea”, de modo que a concepção das canções resultou na ideia de juntá-las em um disco. “O álbum simplesmente aconteceu, foi o resultado das canções que o compõem. Tive influências ouvindo bandas de cumbia, sempre quis fazer algo do tipo, algo com a minha cara, uma cumbia pernambucana, e acabou tendo esse resultado”, diz Bella.


A junção das dez músicas, no entanto, acontece de forma harmoniosa; em Crua, Bella articula canções cujas letras e ritmos são congruentes. Nas composições, a artista se debruça sobre inquietações pessoais, a maioria delas relacionadas a relacionamentos amorosos. “O Crua sou eu nos mínimos detalhes. As letras são sensações que eu tive; crua é muitas vezes o meu oposto, a maior verdade de mim”, conta a artista.


“Eu sinto e boto pra fora. Preciso, no meu mais íntimo, colocar pra fora. É algo fluido, passa por pegar o violão, fazer uma construção de palavras, num processo que é simples para mim”.

As sonoridades que se encontram em Crua passam pelos boleros, pelo brega, cuja presença é marcante já em Sorte, primeira faixa do disco, circulam por beats eletrônicos que flertam com o trap (vide Moça do Bar) e vão até à poesia falada, como acontece na pessoal Verso Incerto. No entanto, o álbum encontra seu ponto alto em Cabaret, uma construção instigante e ébria que evidencia o potencial vocal da artista.


A confluência de sonoridades distintas que dialogam no trabalho de estreia de Bella Kahun é enfatizada por meio da produção, feita pelo selo pernambucano PE Squad, criado em 2016 e responsável pela produção de artistas como Luiz Lins. “O Crua sem eles não teria sido o que é sem os toques de Mazili [produtor] e do o trabalho do pessoal da produtora. Mesmo o nome do disco, a organização dos roteiros, e a construção do álbum, que inicialmente tinha sido pensado para ser um EP, foram influência de conversas com o pessoal da produção”, conta Bella.

Baseada em Garanhuns, a artista revela abertamente que usa das influências do interior e que o diálogo com os artistas da região moldou o Crua, já que músicos e artistas locais trabalharam ativamente na construção do álbum e dos produtos derivados dele. Mas nem tudo são flores em Garanhuns, Bella aponta a desvalorização dos artistas da cidade como um problema grave. “Valoriza-se mais o de fora do que o daqui. Há uma safra de artistas incríveis aqui, pessoas que estão ao meu lado e que trabalharam comigo nesse cenário, que eu queria que fosse mais valorizado.


“A cena daqui [de Garanhuns] é muito desvalorizada, não só a musical, mas também a de outras artes. Eu queria muito que os políticos da cidade e a prefeitura valorizassem mais, porque [Garanhuns] é a terra de Dominguinhos; a gente tem o Viva Dominguinhos o FIG, o Natal Luz, e mesmo assim muitos artistas não têm oportunidades de cantar, de expor suas artes e receber por isso”, reclama a cantora.


Trilogia audiovisual

Uma das estratégias de divulgação do disco é o lançamento de uma série de três produções audiovisuais que dialogam com as temáticas do álbum. Os videoclipes de Sorte, Boemia e Cabaret, foram dirigidos pelo cineasta pernambucano Rostand Costa. Com um clima ébrio e retrô, os vídeos resgatam uma ambiência própria de estilos “mais clássicos”, como define a própria cantora.

“Eu sempre gostei dessa estética mais clássica, boemia. A trilogia traz uma história de amor: Sorte começa com um lado mais ‘cafajeste’, de não estar apaixonado, conhecendo a pessoa; já em Boemia, o clipe não tem tantas cores, e é sem o olhar e a presença que tinha em Sorte; em Cabaret, a gente tem uma construção que gira em torno das lembranças, dialogando com a letra da música, essa é o único dos clipes em preto e branco”.


As dez faixas, bem como a trilogia de clipes, estão disponíveis no YouTube. Em breve, o disco estará nas plataformas de streaming.


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