• Revista Gruvi

50 álbuns pernambucanos da década [parte 4]



Chegamos à parte final da nossa seleção dos 50 álbuns pernambucanos da década. Nesse post, os cinco discos que mais pontuaram no nosso sistema de seleção.


Como a lista foi elaborada: cada participante escolheu cinco álbuns lançados entre janeiro de 2011 e dezembro de 2020 e os organizou do quinto ao primeiro lugar. Então, atribuímos uma pontuação para cada colocação (5 pontos pro primeiro de cada lista, 4 pro segundo, 3 pro terceiro e por aí vai). Depois, somamos a pontuação obtida por cada álbum mencionado e dividimos os 50 álbuns mencionados em quatro partes, o link para cada uma delas está no final desta página.



Ciranda sem fim - Lia de Itamaracá (2019)


Eis o álbum que acumulou mais pontos considerando o nosso sistema de votação. Com 16 pontos, esteve presente em quatro das quinze listas elaboradas pela equipe da Gruvi e pelos convidados. Ciranda sem fim é uma celebração de alto nível à carreira e à vida de Lia de Itamaracá. Para além das cirandas, que também estão presentes de forma marcante no disco, Lia passeia por outras sonoridades, se posicionando como uma artista versátil, capaz de experimentar horizontes que vão para além da “ciranda de Lia”. Essa repaginada no trabalho da artista tem uma forte influência de DJ Dolores, que junto com a produtora cultural Ana Garcia, assina a produção do álbum.


Ao longo do disco, diversas colaborações ajudam a dar corpo ao trabalho de formas lírica e sonora. Alessandra Leão compôs Falta de Silêncio; Peixe Mulher, é escrita por Ava Rocha e Iara Renó e Desde Menina (escrita especialmente para a cirandeira) por Chico César.


Por fim, Ciranda sem fim é marcado por elos entre o contemporâneo e o passado. Há novas roupagens de músicas antigas (como em O relógio, versão de um bolero espanhol gravada no Brasil por Altemar Dutra), encontros geracionais e uma profusão de ritmos inédita na discografia de Lia. O resultado é um disco que nasceu clássico, tende a crescer ainda mais com o passar do tempo e se posiciona à altura da figura radiante e admirável que é Lia de Itamaracá.

Nação Zumbi - Nação Zumbi (2014)


"Soar diferente é importante para nós", já dizia Jorge Du Peixe poucos dias após o lançamento de "Nação Zumbi", álbum direto e autodescritivo. Da novidade, por vezes símbolo da reinvenção do que já se foi, a banda recifense lançou o oitavo disco de estúdio em 2014, ano que marcou o retorno de gravações inéditas pelo grupo após sete anos, e que cravou o aniversário de 20 anos do álbum "Da Lama aos Caos", o primeiro da discografia dos caranguejos andantes.


Nem seria preciso reafirmar que o disco lançado em 1994 surgiu como uma bomba relógio na música brasileira, sendo responsável por popularizar o Mangue Beat, ainda na potente presença do mestre Chico Science. Nesse caso, torna-se quase que um sacrifício mental não distanciar as duas obras. "Nação Zumbi" tem elementos próprios, para além do ineditismo das canções. A faixa de abertura do trabalho, Cicatriz, se materializa com um andarilho da guitarra de Lúcio Maia, toques de alfaia, junto ao baixo de Dengue e da bateria, ora elétrica nas viradas, outrora pacífica. O nome da música entrega os registros marcados nos componentes da banda ao longo dos anos, que além de não esquecidos, são incorporados ao trabalho, produzido por Kassin e Bernas Ceppas.


O que é contrastado no som ameno de "A Melhor Hora da Praia". A parceria com Marisa Monte explica parte do estado de espírito do grupo com o retorno da banda - que sempre esteve junto, mas ao longo dos sete anos anteriores concentrado em projetos paralelos e outros individuais. Assim como "Um Sonho", em que a melancolia junto ao saudosismo toma conta de toda a cenografia da memória. Essas duas, talvez, sintetizem a denúncia da nova fase da Nação, que, por outro lado, não abandonou as raízes, manteve o "grito" do povo aceso, e a denúncia das mazelas sociais que permeiam o cotidiano irrestrito ao Recife - mantendo o tom irônico, mas menos agressivo do que temos como usual, como em "Bala Perdida". "Foi de Amor", em sua freneticidade, também se mostra exemplo próximo dessa ligação, e nos leva de volta a tempos passados. Apesar de anunciar o amadurecimento da nova atuação da banda, "Nação Zumbi" mantém vivo o questionamento de Fred Zero Quatro, em 1992: "O que fazer, então, para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos?".



Sonorosa - Mestre Anderson Miguel (2018)


Sonorosa, terceiro álbum de estúdio de Mestre Anderson Miguel, nos transporta para as cores, sons e vertigens do maracatu rural. O disco de um dos mais jovens e promissores mestres é um encontro com o futuro, através da ancestralidade.


“A primeira vez que eu canto aqui/ O povo tá aí pra me ver cantar”. Essas são as palavras que abrem os caminhos: um canto pra guiar a abertura de um dos discos contemporâneos mais importantes pra música popular pernambucana.


Com produção dividida pelos incríveis Siba e João Noronha, o disco de 2018 conta também com as colaborações de Felipe Silva e Allan Abadia (trombone), Gui e Amílcar Rodrigues (trompete), Dinho (mineiro e gongué), Albérico (surdo e bombo), Mestre Cabeça (tarol) e Lello Bezerra. Além das presenças e força de Juçara Marçal (Metá Metá) e Jorge Du Peixe (Nação Zumbi).



Do Meu Coração Nu - Zé Manoel (2020)


Lançado em outubro de 2020, “Do Meu Coração Nu” do cantor, compositor e pianista pernambucano Zé Manoel, marcou o ano mais conturbado, sombrio e estranho dos últimos tempos. O álbum é um grito de amor, ancestralidade, negritude e poesia no meio do caos e, acima de tudo, um desabafo que tem como premissa maior a história da cultura e da música negra no Brasil.


Com participações de artistas negros consagrados como Luedji Luna, Letieres Leite, Grupo Bongar e Bell Puã, o disco conta com 11 faixas que nos remete a uma narrativa de afeto e ancestralidade conduzidas por vozes e arranjos musicais potentes, que ganham uma beleza única com o piano de Zé Manoel.


Em novembro, produzimos uma crítica sobre o disco, confira: https://bit.ly/3o87fWv


Selvática - Karina Buhr (2015)


Poeticamente feroz, em Selvática Karina Buhr atesta com excelência sua capacidade versátil de se expressar musicalmente. Em seu terceiro álbum solo, tanto as temáticas quanto o instrumental das canções incorporam um espectro muito variado, mas em nada vacilante. Sem medo de se posicionar, Karina aborda de forma transparente e tempestuosa temas como racismo, machismo, crise política, especulação imobiliária e corrupção; colocando-se como potência feminista desde a capa do disco, onde se apresenta com seios a mostra e armada com um punhal e um olhar incisivo (talvez mais cortante que a própria arma).


O time de instrumentistas que acompanham a artista, formado por Edgard Scandurra, Fernando Catatau, Guilherme Mendonça e Manoel Cordeiro, também é responsável por construir uma identidade flutuante, mas ao mesmo tempo consolidada no disco, que transita entre punk (Pic Nic e Cerca de Prédio); reggae (Dragão e Alcunha de Ladrão) e também música popular nordestina (Rimã). Várias músicas do disco apresentam uma estética desordenada e ruidosa, de modo que a guitarra penetrante de Scandurra protagoniza uma desarmonia perfeita quando combinada ao canto de Karina, como evidenciado na sonoridade que beira o terror em Eu Sou Um Monstro.


Selvática entrega versos por vezes duros de engolir, mas necessários e atuais, como no caso da canção Esôfago, que aborda violência contra a mulher e a relação patriarcal de posse enraizada na sociedade machista. “Eu não posso te deixar, te deixar / Querida minha / Te levarei junto / Disse o assassino / Com aplausos do público”. A artistas também rompe com o estereótipo de mulher dócil na já citada Eu Sou Um Monstro quando canta: “Hoje eu não quero falar de beleza / Ouvir você me chamar de princesa / Eu sou um monstro“. Fortes e essenciais, as palavras de Karina dialogam com o cenário caótico da política brasileira e reverberam para além da camada musical.






Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4


Veja como votou cada convidado da série "50 álbuns pernambucanos da década"


Com o objetivo de criar uma retrospectiva diversa, para compor a série com os 50 discos que mais se destacaram na década (2011-2020), contamos com a participação de onze convidados, além de a votação individual de cada integrante da nossa equipe. Participaram da votação quatro veículos de comunicação especializados em música pernambucana e sete comunicadores, também de Pernambuco, que são familiarizados com a cena cultural local.


Além dos 50 álbuns, foram mencionados alguns singles e gravações que não fazem parte das discografias oficiais dos artistas. São eles: Toma Empurradão - Shevshenco e Elloco (2018); Envolvimento - MC Loma e as Gêmeas Lacração (2018); Preto Mermo - Okado Canal (2020) e Jéssica Caitano - Ao Vivo no Estúdio Showlivre (2019).


Confira as escolhas de cada convidado:


Gruvi:


André Santa Rosa:

Elã - Kalouv (2017)

De baile solto - Siba (2015)

Sonorosa - Mestre Anderson Miguel (2018)

Rugby Japonês - Amandinho (2015)

Computador de Ciço - Radiola Serra Alta (2014)


Giovanna Carneiro:

Do Meu Coração Nu – Zé Manoel (2020)

Uana Mahin – Pantera (2019)

Desempena – Almério (2017)

Karina Buhr – Selvática (2015)

Nação Zumbi – Nação Zumbi (2014)


Heloise Barreiro:

Ottomatopeia - Otto (2017)

Selvática - Karina Buhr (2015)

Viagem Ao Coração do Sol - Cordel do Fogo Encantado (2018)

Ciranda sem fim - Lia de Itamaracá (2019)

Chão - Lenine (2011)


Júlia Rodrigues:

Priscila Senna - A Musa 10 Anos (2019)

Nação Zumbi - Nação Zumbi (2014)

Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito! - Jhonny Hooker (2015)

Banda Torpedo - Uma Verdadeira História de Amor (2014)

Jéssica Caitano - Ao Vivo no Estúdio Showlivre (2019)


Vinícius Lucena:

Avante - Siba (2012)

Sonorosa - Mestre Anderson Miguel (2018)

Lira - Lirinha (2011)

Macumbas e Catimbós - Alessandra Leão (2019)

Rasif - Amaro Freitas (2018)


Veículos:


Café Colombo:

Cafurnas Fulni-ô - Povo Fulni-ô (2019)

Macumbas e Catimbós - Alessandra Leão (2019)

Longe de Onde - Karina Buhr (2011)

O conto de voinha - Banda do Carmo (2019)

Estamos Vivos - Isabela Moraes (2020)


Life's too Short:

Rugby Japonês - Amandinho (2015)

Elã - Kalouv (2017)

Molho - Graxa (2013)

Rua I - Torre (2018)

Eu não sou afrofuturista - Biarritzzz (2020)


Que Braba!:

Crocodiloboy - Diomedes Chinaski (2020)

Comunista Rico - Diomedes Chinaski (2018)

Uma verdadeira história de amor - Banda Torpedo (2015)

Ao vivo em Recife - Priscila Senna (2012)

Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito! - Jhonny Hooker (2015)


Alcalinas Brisadas:

Flertar é Humano - Madimboo (2019)

Selvática - Karina Buhr (2015)

Recife 19 - DJ Dolores (2019)

Lirinha - Lira (2011)

SIGNOSER - Lucas Torres (2018)


Comunicadores/Produtores:


AD Luna (interD):

Nação Zumbi - "Nação Zumbi" (2014)

Lia de Itamaracá - "Ciranda sem fim" (2019)

Zé Manoel - "Do meu coração nu" (2020)

Triinca -Triinca (2017)

Cangaço - Rastros (2012)


Bruno Vinícius (Folha de Pernambuco):

Ciranda Sem Fim - Lia de Itamaracá (2018)

Nação Zumbi - Nação Zumbi (2014)

Do Meu Coração Nu - Zé Manoel (2020)

O Grande Encontro 20 Anos - Alceu, Elba e Geraldo

Viagem Ao Coração do Sol - Cordel do Fogo Encantado (2018)


Emannuel Bento (Diário de Pernambuco):

Olindance - Academia da Berlinda (2011)

Vou fazer uma macumba macumba pra te amarrar, maldito (2015)

Ao Vivo no Recife - Musa do Calypso (2013)

Rasif - Amaro Freitas (2018)

Vendavais - Ave Sangria (2019)


Erika Muniz (Revista Continente):

Ciranda sem fim - Lia de Itamaracá (2019)

Sonorosa - Mestre Anderson Miguel (2018)

Samba de gira - Bongar (2016)

Musa do Calypso - Musa do Calypso (2014)

Computador de Ciço - Radiola Serra Alta (2014)


Lenne Ferreira (Alma Preta e Aqualtune Produções):

Bongar - Ogum Iê (2017)

Toma Empurradão - Shevshenco e Elloco (2018)

Envolvimento - MC Loma e as Gêmeas Lacração (2018)

Sai da Frente - Mixtape de Bione (2019)

Preto Mermo - Okado Canal (2020)


Wilfred Gadêlha (PEsado):

Cangaço - Rastros (2013)

Reflections and Rebellions - Pandemmy (2013)

Walpurgisnacht - Elizabethan Walpurga - 2016

Quatro Mil Corpos - Rabujos (2015)

Alceu ao Nosso Jeito - Hanagorik (2012)


Zeca Viana (Recife Lo-fi):

Canções do Quarto de Trás - D Mingus (2012)

Almeijão - Matheus Mota (2014)

Cais - Guma (2018)

Fuzzled Mind - Diablo Angel (2016)

Aparición - Jonatas Onofre (2017)


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