• Revista Gruvi

50 álbuns pernambucanos da década [parte 3]



Nossa lista dos 50 álbuns pernambucanos da década chega na reta final. Hoje, mais quinze discos selecionados por nossos convidados e comentados pela equipe da Gruvi.

Como foi feita a seleção: cada participante escolheu cinco álbuns lançados entre janeiro de 2011 e dezembro de 2020 e os organizou do quinto ao primeiro lugar. Então, atribuímos uma pontuação para cada colocação (5 pontos pro primeiro de cada lista, 4 pro segundo, 3 pro terceiro e por aí vai). Depois, somamos a pontuação obtida por cada álbum mencionado e dividimos os 50 álbuns mencionados em quatro partes. A primeira saiu no dia 21; a segunda na véspera de natal (24); a terceira, hoje (28) e a última parte, com os cinco discos que mais pontuaram na votação, vai ser publicada no último dia do ano (31).


Para ver as partes anteriores, clique nos links que a gente colocou no final do texto.

Avante - Siba (2012)

Depois de ter transitado com maestria por entre diversas camadas da cultura popular, Siba lançou um álbum ousado, que trouxe novas nuances, sonoridades e abriu novos horizontes aos trabalhos do poeta. Depois de Avante, os dois discos lançados por Siba (De baile solto, de 2015, e Coruja Muda, de 2019) seguiram numa linha que o consolidou como um dos grandes artistas contemporâneos da música pernambucana e um dos mais inventivos a nível nacional. Para além da reafirmação da eficácia de Siba como letrista (Brisa, Ariana e Qasida são só algumas das grandes composições do disco), o álbum também representa uma consolidação de Siba como guitarrista. Nesse contexto, entra em destaque a produção de Fernando Catatau, fator decisivo para a construção de Avante. As guitarras, inclusive, são elementos fundamentais na estrutura musical do álbum e, junto a instrumentos como a tuba e o vibrafone, moldam uma sonoridade que engloba os gêneros que funcionam como pilares fundamentais na obra do artista, mas com pitadas de indie rock e de outros gêneros.


Flertar é humano - Madimboo (2019)

Dançante, eletrizante e ‘caliente’, Flertar é Humano é o disco de estreia da banda recifense Madimboo, formada pelos músicos Artur Dantas, Thiago Duarte e Felipe Rodrigues. O álbum tem acionamentos próprios de América Latina, representados pelo modo passional e dramático como toca o guitarrista Felipe Rodrigues, além do canto e das temáticas do trabalho. Tudo isso é atravessado por uma vivência do Recife muito forte e uma mistura de diversos estilos, como brega (muito evidente em Os Últimos Dias de Pompéia), pop, música popular (nítida em Isadora) e eletrônica. A combinação musical do disco dá uma cara própria à Madimboo, que parece sintetizar a energia local recifense nas canções, ao mesmo tempo que produz melodias internacionais, atemporais e irresistíveis ao lado dançarino e paquerador que habita em cada um de nós.


Cafurnas Fulni-ô - Povo Fulni-ô (2019)

O álbum Cafurnas Fulni-ô foi lançado em dezembro de 2019 pelo projeto homônimo, dedicado a ajudar na divulgação e preservação dos cânticos tradicionais da etnia Fulni-ô. As 14 canções do disco foram gravadas na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e são cantadas em Yaathe, língua nativa do povo, que hoje se concentra em Águas Belas, no Agreste de Pernambuco, e no Santuário Sagrado dos Pajés, no Distrito Federal. Em registro, a tribo indígena é uma das poucas no Brasil, e a única do Nordeste que conseguiu resguardar o idioma materno como primeira língua. O álbum, portanto, representa muito mais que a extensão de um trabalho musical em sua essência, mas a perpetuação do berço cultural vivo da etnia, que tem o Yaathe como pilar de sobrevivência, soberania e identidade.


A frase que dá nome ao disco Woxtonã Yaathelha Kefkyandodwa Kefte, se traduz no convite dos Fulni-ô para a apreciação do trabalho: "Venham ouvir o Yaathe, a nossa língua que vocês nunca ouviram", e cuja tribo se refere como a semente preciosa deixada pelos ancestrais. A produção executiva de Cafurnas Fulni-ô foi feita por Tâmara Jacinto, enquanto a gravação, mixagem e masterização do som tem assinatura de André Magalhães. De forma muito simples, a condução do ritmo na Cafurna é feita pelo Maracá, responsável pelo agitamento dos passos marcados nas danças e parte do ritual que coloca a ancestralidade dos Fulni-ô no centro da produção.


Lira - Lirinha (2011)

O primeiro trabalho solo do vocalista e letrista do Cordel do Fogo Encantado é um dos quatro discos de 2011 que figuram na nossa lista. Lira representa um certo rompimento do artista com a estética que molda os trabalhos do Cordel. É um disco alternativo e independente, na época disponibilizado para download pela internet, com incursões por entre gêneros até então pouco explorados por Lirinha, que flerta com experimentalismos que um álbum solo o permitia exercitar.

Distanciando-se da força percussiva do Cordel, e assumindo um tom mais introspectivo, Lirinha dá espaço para marcantes inserções de guitarras elétricas, elementos eletrônicos e para gêneros como o rock, o samba, entre outras vertentes. Para isso, o artista reuniu nomes como Pupillo, Bactéria e Neilton (guitarrista dos Devotos). O disco ainda conta com a participação de nomes como Otto, Angêla Rô Rô e Lula Côrtes, com quem Lirinha divide os vocais em Adebayor. Foi a última gravação em estúdio antes da morte de Lula.


Uma Verdadeira História de Amor - Banda Torpedo (2015)

Não somente as vozes marcantes de Davison Kerlls e Tayara Andreza colocaram em evidência a Banda Torpedo como uma das bandas mais amadas do brega romântico de Pernambuco. Mas certamente a figura incorporada no palco por ambos, contribuiu exponencialmente para essa notoriedade, e Uma Verdadeira História de Amor também foi resultado disso.


O álbum foi lançado em 2015, quando o brega romântico já procurava maneiras de se reinventar, paralelamente à disseminação acelerada do bregafunk no estado. E, para muitos, o lançamento do disco superou as expectativas diante do cenário. Com um repertório percussivo que mistura o instrumental clássico com o eletrônico, Diz na Minha Cara, Revanche, Coração Dividido, Me Ensina a Te Esquecer e Castigo, foram alguns dos tantos sucessos embalados pela banda no trabalho, e que deixaram o gostinho da nostalgia que se perpetua hoje.

Macumbas e catimbós - Alessandra Leão (2019)

O quarto álbum de estúdio da carreira solo de Alessandra Leão marca uma volta da artista às suas raízes percussivas. As músicas que compõem Macumbas e Catimbós são pontos tradicionais e composições da artista. Trata-se de um trabalho que nos permite uma imersão profunda, quase hipnótica, na incursão espiritual de Alessandra; em seu site oficial, ela explica que o álbum não surge a partir da intenção de "reproduzir uma gira ou um xirê", e o define como "uma celebração, uma oferenda". "Esse disco é feito para eles [os orixás], mas é sobretudo feito com eles". O álbum traz participações de artistas como Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Anelis Assumpção e Juçara Marçal, que assina um livro que acompanha as versões físicas do disco.

Ottomatopeia - Otto (2017)


Ottomatopeia é uma confluência de figuras de linguagem que parecem exprimir o que há de mais sensível e poético na música e no interior do cantor pernambucano Otto. Se distanciando do experimentalismo psicodélico do seu antecessor The Moon 1111 (2012) e com uma dose a menos de melancolia quando comparado ao clássico Certa Noite Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), o sexto álbum do cantor é mais pop e mergulha de vez numa pegada brega, com influência de nomes como Odair José, Erasmo Carlos e Fagner - escolha muito coerente com a temática do disco: desencontros, ilusões e decepções; mas antes de tudo: amor, carta positivamente repetida nas canções do disco. Dessa vez, um amor ainda dolorido, mas se mostra em constante recuperação e cobra responsabilidade, como em "Se plantou, tem que regar", trecho da canção É Certo o Amor Imaginar? ou na música Bala, quando o cantor canta que "O tempo saberá trazer de volta a vida".


O rock setentista e MPB também atravessam o álbum, que conta com participações de nomes como Zé Renato, Céu, Roberta Miranda e até mesmo Andreas Kisser. Intimista, Ottomatopeia conquista pela poesia das letras marcantes e pelo denso fundo musical, que transita entre o dançante e o contemplativo.


Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! - Johnny Hooker! (2015)

Visceral, sincero e marcante, Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! foi o álbum que introduziu e consolidou o cantor Johnny Hooker na cena musical pernambucana. A intensidade e passionalidade do artista, tanto nas canções como nas performances ao vivo, é constantemente comparada com veteranos como Cazuza, Cássia Eller e Ney Matogrosso. Muito disso se dá para forma desprendida, boêmia, por vezes amarga e até confessional como Johnny aborda os encontros e desencontros amorosos. O disco vai dá denúncia Você não me procura nem mais, pra saber se eu existo / Não responde meus recados, me trata feito lixo” (Alma Sebosa); passeia pela melancolia em Amor Maginal - “Minha flor não me machuques / Minha dor não me abuses assim / Não tire magoas / Não tire magoa de mim” e rende-se à súplica em Volta: “Volta / Que o caminho dessa dor me atravessa / Que a vida não mais me interessa / Se você vai viver com um outro rapaz”. Tudo isso para encontrar-se com a libertação com canções como Chega de Lágrimas e Desbunde Geral.


Transitando entre estilos diversos, como brega, frevo, rock e samba, Eu Vou Fazer Uma Macumba… entrega um pano de fundo musical potente e passou a ser um daqueles álbuns atemporais que já foi e ainda será trilha sonora de muitas histórias, sejam de amor, de decepção, ou uma combinação desordenada de tudo isso junto, assim como são as canções do álbum - um prato cheio para quem quer se entregar aos sentimentos.


Crocodiloboy – Diomedes Chinaski (2020)


Lançado em 2020, Crocodiloboy é o primeiro álbum da carreira do rapper pernambucano Diomedes Chinaski. Neste trabalho, Diomedes buscou diversas referências da Black Music e foi além do rap, trazendo sonoridades do jazz, R&B, Blues e outros. Além do excelente trabalho presente nos ritmos e beats que compõem o disco, Crocodiloboy é um grito sensível e forte de um homem negro e favelado.


A sensibilidade escancarada nas letras de Diomedes nos faz refletir sobre erros, consequências e aprendizados e serve para desconstruir a imagem estereotipada do homem negro bruto e sem sentimentos. No álbum é possível perceber a influência do rapper norte-americano Tyler The Creator na criação musical de Diomedes, que já declarou a sua admiração pelo artista diversas vezes!


Canções do Quarto de Trás – D Mingus (2012)

Com uma sonoridade única, o álbum Canções do Quarto de Trás é uma obra intrigante e instigante. Lançado em 2012 e com 12 faixas, o disco carrega narrativas que se revelam sobretudo nas notas e dedilhados do violão e se entrelaçam com a voz serena do cantor.


Escolhido como o número um na lista de melhores álbuns da década por um de nossos convidados, a obra é um presente para nossos leitores que terão a chance de se debruçar em “texturas, boas melodias, canções fortes e esse ar artesanal”, como bem definiu Zeca Viana. Canções do Quarto de Trás é mais um álbum que é fruto de uma produção independente com um potencial enorme e merece ser conhecido e reconhecido.

Olindance – Academia da Berlinda (2011)


O nome do disco já o define muito bem! Olindance é tudo que há de mais dançante, festivo e carnavalesco, uma obra que reverencia e homenageia os festejos da cidade de Olinda. Com muita cumbia, brega, maraca, ciranda, carimbó e tantos outros ritmos que carregam a conexão entre a cultura do litoral de Pernambuco e as influências dos ritmos latino americanos, o álbum de estreia do grupo olindense Academia da Berlinda se tornou um marco na cena musical e até hoje faz parte das playlists dos pernambucanos.


São 15 faixas para dançar do início ao fim, com letras e narrativas contextualizadas nas saudosas e calorosas ruas de Olinda, ruas que vivem na memória de todos os pernambucanos que já desfrutaram da cidade histórica e carnavalesca. Se você ainda não conhece este álbum pare tudo que está fazendo e vá ouvir, e se você conhece, nos desculpem pelo gatilho de saudade do carnaval e da praia.


Rugby Japonês - Amandinho (2015)


“Esse disco é a vitória do pequeno Japão, é a morte ao falso metal, é a sagração de que o punk torna as coisas possíveis, não importa da onde você é, se você tem grana ou não, nem se você sabe tocar”, dizia o texto de divulgação do disco Rugby Japonês, da Amandinho. De fato ele foi tudo isso: fez de um disco de punk, meio emo e meio rock alternativo, o início de uma cena e da possibilidade de se fazer música e rolês para uma galera (um abraço pra Life's too short!).


Formado por João Eduardo (bateria), Smhir Garcia (guitarra), Felipe Soares (guitarra/voz) e Danilo Galindo (baixo), a Amadinho se baseava em sonoridades noventistas e oitentistas. A partir de três acordes e energia jovem, a banda fez uma espécie de cult da cena alternativa, tudo cantando de forma sincera sobre desespero juvenil, ser feito de otário, paixões de apartamento e solos de metal transcendentais.


Cangaço - Rastros (2013)

Trazendo de forma criativa elementos da cultura nordestina para dentro do disco de estreia, Rastros (2013), da Cangaço, foi uma grande forma de começar uma discografia. Com viola, flauta e tudo. A banda foi formada em 2010, em Recife, e atualmente conta com Rafael Cadena (Guitarra/Vocal), Magno Barbosa Lima (Baixo/Vocal) e Mek Natividade (Bateria/Percussão).


Misturando nas letras trechos do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto e participação de Rico Albino com arranjos e melodias tipicamente nordestinas, o disco traz para um som Thrash, com influências de Black metal, imagens inventivas de uma imaginário nordestino. É memória coletiva e ancestralidade, mostrando maturidade de um grupo promissor, que ousou adentrar a iconografia regional através de um viés da música pesada.



Kalouv - Elã (2017)

Com influências de bandas como Mogwai e Explosions in the Skies, além de música instrumental, math rock, jazz e trilhas sonoras, a Kalouv surgiu há dez anos como uma das principais forças no rock alternativo de Recife. O grupo é composto por Basílio Queiroz (baixo), Bruno Saraiva (teclado), Matheus Araújo (guitarra), Rennar Pires (bateria), Saulo Mesquita (guitarra) e Túlio Albuquerque (guitarra).


A banda já caminhava bem com os primeiros trabalhos, mas foi definitivamente com Elã que conseguiu se conectar com mais uma galera, a partir de uma estética que misturava tecnologias, nostalgia e videogames de 8-Bit. Foi um divisor de águas, que agrada desde o fã clássico de rock progressivo até quem viaja mais em vaporwave ou na neopsicodelia. Passando pelo new wave, synthpop e game music, Elã ajudou a banda a firmar uma paisagem digital, composta de beats, em um disco com sonoridade mais pop e concisa.


Ogum Iê! - Bongar (2017)

Mais uma menção ao grupo Bongar na lista dos 50 álbuns pernambucanos da década. Produzido pelo maestro Letieres Leite (da Orkestra Rumpilezz), o disco traz uma reiteração de uma das principais características do grupo: o diálogo entre ancestralidades e a contemporaneidade. Além dos tradicionais elementos percussivos que caracterizam as apresentações ao vivo do Bongar, Ogum Iê! tem inserções de instrumentos como flauta, violão, cavaquinho, baixo, guitarra, instrumentos de sopro e experimentais, como tonéis de metal e latas de alumínio. O disco, que traz oito faixas (sete delas composições de Guitinho da Xambá), é uma celebração aos orixás Ogum e Exu.



Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 (31/12)


Participaram da votação: AD Luna (InterD); Erika Muniz (Revista Continente); Emannuel Bento (Diário de Pernambuco); Wilfred Gadêlha (PEsado); Zeca Viana (Recife LoFi); Bruno Vinícius (Folha de Pernambuco); Lenne Ferreira (Alma Preta e Aqualtune produções); Veículos: Café Colombo; Life's Too Short; Alcalinas Brisadas; Que Braba!; Gruvi: André Santa Rosa, Giovanna Carneiro, Heloise Barreiro, Júlia Rodrigues e Vinícius Lucena.

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