• Revista Gruvi

50 álbuns pernambucanos da década [parte 2]


Tá a fim de um presente de Natal? Então se liga na segunda parte da nossa lista de álbuns pernambucanos da década. Clica aqui para ver a parte um. Como foi feita a seleção: cada participante escolheu cinco álbuns lançados entre janeiro de 2011 e dezembro de 2020 e os organizou do quinto ao primeiro lugar. Então, atribuímos uma pontuação para cada colocação (5 pontos pro primeiro de cada lista, 4 pro segundo, 3 pro terceiro e por aí vai). Depois, somamos a pontuação obtida por cada álbum mencionado e dividimos os 50 álbuns mencionados em quatro partes. A primeira saiu no dia 21; a segunda, hoje, na véspera de natal (24); a terceira sai no dia 28 e a última, com os cinco discos que mais pontuaram na votação, vai ser publicada no último dia do ano (31).


Rasif - Amaro Freitas (2018)

Rasif é um daqueles discos que não conseguimos definir como pertencente a um gênero musical específico. Trata-se de um dos registros mais inventivos do pianista pernambucano, que também lançou o potente Sangue Negro (2016). Através da mescla de ritmos, referências e ideias, o músico dá uma roupagem brasileira (e nordestina) ao jazz, ritmo universal que no trabalho de Amaro se mistura a sonoridades que nos remetem a sons do frevo, coco, baião e maracatu. A diversidade sonora se assemelha, inclusive, às emoções que temos ao longo dos pouco mais de cinquenta minutos do álbum. O ponto de intersecção entre todas as referências supracitadas é a música oriunda do continente africano, reverenciada em aspectos como a percursividade acentuada no toque do piano. Em Rasif, Jean Elton toca baixo e Hugo Medeiros bateria.


Recife 19 - DJ Dolores (2019)

O último álbum lançado por DJ Dolores é um apanhado de crônicas que se relacionam diretamente à cidade que dá nome ao disco. Tais relações se dão tanto sonora quanto liricamente, de modo que as diversas parcerias que marcam o álbum parecem narrar a contemporaneidade recifense com maestria (e outras épocas também, como em Adilia's Place). Como Dolores é especialista em criar ambiências sonoras (são diversos os trabalhos em trilhas para o audiovisual), conseguimos, através da música, sacar esses encontros com a temática evocada no álbum. 12 segundos (um quase tecnobrega cantado por Erica Natuza), a já mencionada Adilia's Place, são alguns dos vários momentos dançantes do álbum, que também nos convida a mergulhar de cabeça em paisagens de um universo sci-fi atravessado por latinidades em faixas como a misteriosa Teniente Ray, Amargura, na qual viajamos no som de um saxofone acompanhado pelas batidas eletrônicas, e Exu Ciborgue. O álbum também tem conta com a participação notável de Jards Macalé, que faz os vocais em Mundanças.


Almejão - Matheus Mota (2014)

Com um quê musical dos Beatles, mas situado numa realidade muito menos mainstream, Almejão, segundo álbum de Matheus Mota, traz histórias musicadas das banalidades cotidianas de uma pessoa comum que convive com inseguranças diárias e expectativas nem sempre alcançadas. A primeira promessa quebrada vem logo no início do disco: “Tenho que parar de escrever letras negativas e atrair energias positivas”. Um pensamento que atravessa quase todos, mas que é falível por essência. Carioca radicado no Recife, Matheus compôs o álbum praticamente sozinho; na companhia apenas do piano, e certamente temas densos e “negativos” gravitam o trabalho (Super-herói), além de outras temáticas mais leves. Instrumentalmente falando, Almejão se destaca pela sua solidez e complexidade, como comprova a instrumental Sem Chororô. A canção remete à Bossa Nova e mostra a potência do artista para transitar entre estilos diversos e criar uma unidade coerente.


Cais - Guma (2018)

Cais é o disco de estreia da banda recifense Guma, formada por Caio Wallerstein, Katarina Nápoles e Carlos Filizola. O trabalho traz canções dançantes que abordam as subjetividades marítimas atravessadas por questões inerentes à existência humana, como romances, decepções, solidão e delírios. Musicalmente, o álbum mergulha em um rock experimental misturado à estilos latinos diversos, incluindo a Música Popular Brasileira (MPB). Apesar da leveza que Cais evoca, o trio mostra muita maturidade musical e se destaca pelas inovações nos arranjos (tanto musicais quanto poéticos).



De Baile Solto - Siba (2015)

De Baile Solto é um disco maleável, festivo e, por vezes, incerto e vacilante. É nesse jogo ritmado e poético, que Siba cristaliza um resgate de uma exploração vinda da Mestre Ambrósio. Dessa vez, sofisticando cada vez mais a sagacidade de suas letras e o prisma entre pop e popular em suas canções.


Colocando os sons que vem da Mata Norte dos Estado como em plena transformação, em De Baile Solto, Siba canta uma liberdade e triunfa ao ler a cultura popular não apenas como uma tradição ou folclore, mas as pensa como uma espécie de “tecnologia social e artística”, onde cabe muitos discursos, maquinarias e bailes.


Molho - Graxa (2013)

Quando saiu em 2013, foi um grande fenômeno entre os blogs de música alternativa a presença do disco Molho. Um dos grandes nomes da "cena beto", Graxa é formada pelo cantor e guitarrista Angelo Souza, Hugo Coutinho (contrabaixo), Ricardo Mansilha (guitarra) Tiago Barros (bateria) e Leo Vila Nova (percussão).


Vou ter que decidir se eu bebo ou seu trago/ E como eu já to embriagado eu decido comprar”, canta Graxa na música de abertura. Com uma mistura irônica, passando por uma mistura de tropicalismos lisérgicos e arranjos de rock e blues, Molho não vive nostalgias, mas um anacronismo muito poderoso, irônico e cativante no modo de criar antigas novidades.


Reflections and Rebellions - Pandemmy (2013)


Na pegada do Thrash/Death, Reflections and Rebellions foi primeiro álbum do grupo pernambucano Pandemmy. Inclusive, foi um disco que logo em sua estreia, colocou a banda em um lugar muito elogioso entre a mídia de nicho nacional e internacional.


O quarteto formado por Guilherme Silva (Guitarra e Vocais), Pedro Valença (Guitarra), Marcelo Santa Fé (Baixo) e Vitor Alves (Bateria), rapidamente passou a configurar os shows de abertura e line-ups de festivais brasileiros. Reflections and Rebellions é um disco que traz o que há de maior do gênero. Começa com uma abertura orquestral grandiosa em Farewell e segue sem tirar o pé do acelerador até o fim. Em 2019, ganhou uma novo remix em celebração a década de seu lançamento.


Walpurgisnacht - Elizabethan Walpurga (2016)


Walpurgisnacht é o álbum de estreia da banda pernambucana de black metal Elizabethan Walpurga. A história do grupo se iniciou ainda nos anos 1990 e passou por formações diversas, mas o primeiro disco só foi lançado em 2016, com a seguinte composição: Leonardo Mal'Lak Alcântara nos vocais, Breno Lira na guitarra e violão, Renato Matos no baixo e backing vocals, Erick Lira na guitarra e Arthur Felipe Lira. A influência basilar da banda é o heavy metal de grupos como Iron Maiden e Mercyful Fate, mas os integrantes também bebem de fontes inusitadas para o gênero, como Beatles, Hermeto Pascoal e até alguns elementos da música armorial. Esses elementos experimentais, quando misturados aos arranjos típicos do Black Metal, como o canto urrado e ruídos místicos, resultam em um som inovador.


Pantera - Uana Mahin (2019)


Lançado em 2019, o álbum Pantera da cantora pernambucana Uana Mahin é uma saudação à ancestralidade e à força dos povos negros. O disco, que conta com 8 faixas, reúne ritmos como reggae, afrobeat e cânticos de religiões de matrizes africanas junto com letras que falam sobre a vivência de Uana como mulher negra.


O primeiro disco solo de Uana, que iniciou a carreira como percussionista e cantora no grupo Sagaranna, é um grande álbum pelas referências à cultura negra de Pernambuco e também pela maestria da artista em sintetizar tão bem, em som e poesia, as experiências de vida e negritude. Vale a pena conferir o trabalho dessa mulher poética e potente.



Desempena - Almério (2017)


Um coração escancarado em uma voz impetuosa e única, é essa a sensação de ouvir Desempena, do cantor natural de Altinho, Almério. Lançado em 2017, o álbum é um mergulho no que há de mais íntimo do artista, um grito de poesia que carrega a força da arte do interior de Pernambuco.


Com 11 faixas, o disco reúne composições marcantes com uma sonorização que mistura potência e suavidade e fazem jus a voz do cantor. As letras trazem narrativas que nos faz refletir sobre romances, atitudes, intimidades, androginismo... Um verdadeiro mergulho no interior de cada ser.


Graças ao Desempena, Almério ganhou o Prêmio da Música Brasileira na categoria Cantor Revelação no ano de 2018. Neste ano, o álbum ganhou uma versão ao vivo, registro da apresentação realizada pelo artista no Teatro Santa Isabel em 2018.


Comunista Rico - Diomedes Chinaski (2018)

Com letras cheias de desabafos, autoafirmação, posicionamentos políticos e acompanhadas de beats marcantes, o rapper pernambucano Diomedes Chinaski marcou a cena da música com a sua mixtape Comunista Rico.


Lançado em 2018, o álbum traz diversas referências do Hip Hop, do rap de mensagem à ostentação do trap, canções para agradar e surpreender os amantes do rap nacional. O trabalho é um marco importante e de grande influência para os rappers pernambucanos e nordestinos que buscam ocupar maior espaço no cenário do rap nacional.



Viagem ao Coração do Sol - Cordel do Fogo Encantado (2018)

Uma declaração aberta ao porvir da liberdade. Após oito anos em silêncio - sentido pelo público e diversas vezes incendiário -, Cordel do Fogo Encantado deu o ar da graça em "Viagem ao Coração do Sol", álbum composto por 10 faixas que tocam o extremo da rotação da terra. O trabalho traz de volta a poética regionalista (enraizada no Sertão pernambucano), "declamatista" e feroz dos vocais de Lirinha; no ritmo assíncrono de Rafa Almeida (percussão e voz), Nego Henrique (percussão e voz) Emerson Calado (percussão e voz) e Clayton Barros (violão e voz). Entre as reinvenções musicais, a disruptura com o tempo passa também a refazer a identidade do quinteto.

Longe de Onde - Karina Buhr (2011)

Contraponto do ponto desleixado e agressivo, Longe de Onde foi lançado em outubro de 2011, e é o segundo álbum solo de Karina Buhr, sendo o sucessor do inconfundível "Eu Menti pra Você", lançado um ano antes. “Despertador, apaga a dor, vai embora... Fica, meu amor”! "Cara palavra", abre o ensejo contrastante da firmeza sangrenta da voz da cantora, ao ritmo tão igual acelerado, mas nem sempre compassado da guitarra de Fernando Catatau, o baixo de Mau e a bateria ensandecida de Bruno Buarque.


No mesmo ano de seu lançamento, o álbum ocupou o 8° lugar entre 50 dos melhores discos nacionais de 2011 da Rolling Stone. As 11 faixas que compõem o trabalho, viajam na sonoridade estridente entre a liberdade e conformismo; existencialismo suavemente contestado, só com um "Copo de Veneno".


Musa do Calypso - Ao Vivo no Recife (2012)

Carregado de sucessos que ainda levam multidões a chorar a perda de um grande amor - até mesmo aqueles que não perderam choram -, Ao Vivo em Recife, lançado em 2012 pela Musa do Calypso, desponta como um marco simbólico do Brega Romântico pernambucano.


O trocadilho popular encontrado em "A Loira e a Morena" (duo com a Banda Kitara), o coração partido revestido em sofrência em "Em Curva Perigosa", e o marca passo de "Apressadinho" hoje trazem a nostalgia de um álbum repleto de representatividade, que além das canções emblemáticas, traz a homogeneidade performática de Priscila Senna e Allison Marx, junto ao ballet puramente inspirado em Calypso (na roupagem e performance).


Todo esse arcabouço completa o repertório de uma apresentação que marcou uma geração e, até hoje, serve de inspiração para que outros movimentos/linguagens ascendam dentro do brega local.




Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 (28/12) - Parte 4 (31/12)


Participaram da votação: AD Luna (InterD); Erika Muniz (Revista Continente); Emannuel Bento (Diário de Pernambuco); Wilfred Gadêlha (PEsado); Zeca Viana (Recife LoFi); Bruno Vinícius (Folha de Pernambuco); Lenne Ferreira (Alma Preta e Aqualtune produções); Veículos: Café Colombo; Life's Too Short; Alcalinas Brisadas; Que Braba!; Gruvi: André Santa Rosa, Giovanna Carneiro, Heloise Barreiro, Júlia Rodrigues e Vinícius Lucena.



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