29 de agosto: das entranhas do Pajeú, o canto veloz de Jéssica Caitano

"Venho me curando das opressões e das pedradas do preconceito da forma que posso e com o que tenho, com música, com poesia". Entre uma brecha e outra das entrelinhas externadas por Jéssica Caitano, mulher lésbica sertaneja, rapper, poetisa, compositora, brincante popular e mais uma levada de prenomes, vem à tona a corrida dolorosa na busca incansável pelo distanciamento de um corpo fora do eixo, minuciosamente escolhido como não habilitado.


No 29 de agosto é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. O dia foi criado em referência ao 1° Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), que aconteceu em 1996, no Rio de Janeiro com o objetivo de formalizar a necessidade de conscientização e respeito aos direitos da comunidade lésbica no Brasil. A data vem acompanhada do dia 19 do mesmo mês, quando é representado o Dia do Orgulho Lésbico, que surge em virtude do poder de ocupação de espaço e resistência da mulher lésbica.


Jéssica Caitano, artista de Triunfo. Foto: José de Holanda

No clarear das respectivas datas, volta à tona o lugar de poder e, também por isso, constante extravio que se encontra o corpo da mulher lésbica, tanto dentro de uma ótica que coloca esse corpo como sujeito estranho no mundo, quanto nas diversas formas que o imperialismo criou para sustentar esse lugar de estranheza. Afinal de contas, o corpo da mulher lésbica é interseccional, caminha por várias frentes de luta. Mas, acima de tudo, o corpo lésbico é uma afronta declarada ao patriarcado. E, sem dúvida, com grandes estragos a esse sistema compulsório que sustenta a heteronormatividade.


Baseada em Triunfo, no Sertão do Pajeú, Jéssica é um exemplo desse afrontamento. No andarilho horizontal de seu Rap Repente, misturado em 360 graus com o côco eletrônico, rima ríspida e rasgada sobre as raízes de sua terra, a multiartista carrega nos versos a ancestralidade que a acompanha ao longo da caminhada.


No discurso, apesar de o dia 29 de agosto ser mais que uma data carimbada no calendário, a artista ressalta as ausências percebidas na ocupação de espaço e inclusão de todos os corpos "considerados desviantes" nos debates e nas formas de escuta.


"Falta a prática mesmo, da inclusão da mulher lésbica em todos os espaços. Todas elas. A mulher preta lésbica, a mulher indígena lésbica, a mulher sertaneja lésbica, a mulher PCD lésbica, a mulher gorda lésbica, a mulher trans lésbica, todas elas!".


Além de cantora, Jéssica ousa em se autodenominar ativista ou "artevista", como costuma falar em trocadilho. A artista também faz parte do Radiola Serra Alta sob as companhias de Careta e Veinha, de Triunfo, e do projeto Surra de Rima junto ao DJ e produtor musical paraibano Chico Corrêa. Iniciativas não faltam, sendo, ainda, presidente da Fundação Cultural Ambrosino Martins e idealizadora do projeto de coco e poesia A Cristaleira, que discorre sobre sua vivência na zona rural com suas avós.


E é se emburacando nessas vivências que se completam que ela crava seu espaço na cultura popular pernambucana, através do "Eletrococo Muderno" ou o coco eletrônico, assim como na incorporação de versos que exaltam o Sertão à terra molhada, de aconchego, identidade e resistência.

Gruvi - A existência de mulheres lésbicas não só representa a ruptura de todo um sistema compulsório que está a todo momento impondo jeitos de ser, agir, comportar e, inclusive, amar. Como a produção musical e cultural feita por artistas lésbicas pode contribuir para que esse sistema continue sendo quebrado e as mulheres lésbicas cada dia mais livres no mundo?


Jéssica - A produção cultural em si já é uma forma de resistência nesse sistema opressor. A mulher lésbica ocupando esse espaço já quebra outra barreira maior e nos coloca num contato direto com outras mulheres, que precisam se fortalecer e se ver ocupando esse lugar também. A maior contribuição é essa representatividade em todas os espaços de produção, obviamente, para aquelas que conseguem driblar todas as formas de preconceito sofridas ao longo da vida até chegar nesse outro lado.


Gruvi - Como sua lesbianidade reflete na música e no som que você produz?


Jéssica - Na minha poesia e na minha música, eu falo sobre tudo que vivo, vejo e sinto. Falo sobre minha infância e minha vivência na zona rural com minhas avós, falo sobre a mata, a roça, sobre nossa comida, nosso brinquedo. Eu sou uma mulher lésbica, que vive isso tudo que uma pessoa hétero também pode viver. Então, para mim, se reflete muito naturalmente, porque é sobre minha vida, e minha vida é isso, eu me reconheço e me respeito como uma mulher lésbica, que ocupa, ou pelo menos tenta, ocupar todos os espaços que tem vontade.


Gruvi - Em Triunfo, desde cedo, você ouvia muita embolada, poesia das declamadoras. De que forma você acredita que as raízes da sua terra caminham com você na vida?


Jéssica - Sou levada por minha ancestralidade na vida. Na música é só mais uma forma de cura. É para me aliviar do peso da palavra, a raiz da minha terra foi plantada no meu verso, e isso vai florescendo, leva tempo, que é que nem mandacaru, só fulora no tempo certo, e eu vou respeitando esses tempos e esses processos mesmo, de me entender enquanto mulher sertaneja que cresceu cuidando da terra, aprendendo sobre agricultura familiar, sobre semente crioula e isso, de alguma forma, por ser verdade, desperta o verdadeiro sentimento que vive ali em cada pessoa. Ancestralidade é reconhecimento, é saber de onde você veio para saber até onde se pode ir. É contar sua própria história e manter viva a força das mulheres que me ensinaram sobre esse tempo que cada coisa leva.


Gruvi - De onde surgiu a ideia de incorporar o Hip Hop ao Eletrococo Muderno?

Jéssica - O Eletrococo Muderno é o samba de coco ou o coco de embolada, ou o coco de umbigada e suas variadas vertentes misturadas às batidas urbanas, à música eletrônica. Começou quando entrei no projeto Radiola Serra Alta, que traz como programadores o Careta e a Veinha, que são duas figuras lendárias, centenárias da cultura popular aqui de Triunfo. Então, é uma Sambada de coco com pegada de grave eletrônico.


Cantar rap junto veio muito naturalmente, porque eu já fazia poesia, independente de música. Então, eu pegava algumas letras que eram poesia e começava a cantar dentro dessas batidas. Nessa poesia, eu falava justamente da minha realidade aqui no sertão, então entrou no Rap Repente também naturalmente. O que eu cantava era rap numa batida de coco, mas com pegada de poesia popular de repente. Aí, vem mais tarde se intensificando no Projeto Surra de Rima, que desenvolvo junto com Chico Correa da Paraíba desde 2018.


Gruvi - O Sertão sempre foi berço de resistência. Como, hoje, o Sertão resiste culturalmente e musicalmente as ideologias hegemônicas de erudição?


Jéssica - Eu acho que quando a gente entende desde cedo nossa história, nossa essência e nossa terra o espaço onde a gente se firma, a gente aprende a lidar com as intervenções de quem vê e vem de fora de maneira única. O fortalecimento se dá pelo reconhecimento que a gente tem em determinado espaço e determinada cultura. O Sertão resiste desde sempre a várias outras questões, na música não é diferente. As escolas e as universidades não reconhecem e não usam como referência os mestres e as mestras da cultura popular, e, pra mim, o erro já começa aí.


Não se ensina nem se lê sobre isso na educação básica. Sempre nos ensinam o que não nos pertence, o que não está ao nosso alcance. Mais uma forma de alienação, o domínio da indústria da música sobre a "música sertaneja". Em algum momento, a arte e o processo artístico deixa de ser arte e passa a ser um produto mesmo, e eu acho que vai perdendo a essência e a poética. O encanto pra mim é outro. Existem aí várias questões que se desdobram sobre esse tema, mas aqui no Sertão do Pajeú nossa veia poética é muito grande e o povo resiste na poesia, na cantoria, na sambada, no Pé de Parede e no Assustado.


Gruvi - A existência da mulher lésbica é solitária em vários aspectos. São muitas lutas diárias e, nesse sentido, a busca por afeto acaba sendo ainda mais crucial para sobreviver. Na sua visão, de que forma o amor passa a ser agente de resistência para se manter viva?


Jéssica - Vejo o amor como a grande chave para todas as questões que ainda assolam a sociedade. A falta de amor e de empatia é a grande ferida que ainda nos magoa diariamente. Esse entendimento veio depois de muitas vivências. Minha primeira namorada foi brutalmente assassinada, eu era adolescente, passei uma dor que gostaria muito que jamais se repetisse. Venho me curando das opressões e das pedradas do preconceito da forma que posso e com o que tenho, com música, com poesia, com os trabalhos aqui com os Coletivos. Com as aulas de percussão e batuque para crianças aqui na comunidade e com a troca que rola com o público que curte o trabalho que faço. Isso me renova e preenche de amor de novo para continuar. O amor é importante mesmo.


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